EXCLUSIVO: Entrevista com Caetano Veloso

EXCLUSIVO: Entrevista com Caetano Veloso

Caetano Veloso dispensa qualquer apresentação, né? Um dos ícones da nossa música. No último dia 28, o músico baiano lançou uma nova versão da canção &...

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Caetano Veloso dispensa qualquer apresentação, né? Um dos ícones da nossa música. No último dia 28, o músico baiano lançou uma nova versão da canção “O Quereres” feita especialmente para a novela A Força do Querer. Música de autoria do próprio Caetano, lançada em 1984 na voz do autor, O quereres foi regravada com arranjo de violoncelos de Jaques Morelenbaum e percussão de Carlinhos Brown. Selecionamos 10 perguntas feitas pelos seguidores do Brasileiríssimos e enviamos para o próprio Caetano responder. Confira:

 

1. Felipe Casi: as suas composições são fonte de inspiração para muitos. Quem são os seus ídolos e fonte de inspiração? Qual canção você gostaria de ter sido o compositor?
Você acha que a MPB, nas mãos da nova geração, está trilhando um caminho bom?

CV – Cresci cultuando muitos cantores e compositores. Ary, Caymmi, Noel, principalmente. Também Lupicínio, Herivelto Martins e Luiz Gonzaga. Todos me inspiraram. Mas nada se compara ao impacto que tiveram sobre mim o canto e o violão de João Gilberto. Eu gostaria de ter sido capaz de compor uma canção como “Quem vem pra a beira do mar”, de Dorival Caymmi. A música popular brasileira é forte. Dificilmente algo ou alguém a faria perder a boa trilha.


2. Yuri Duarte: O quereres tem muitas versões de vários artistas, Gal, Bethânia, Nise Palhares, Margareth Menezes entre outros… Qual você mais gosta? Ou o que você sente por cada uma delas?

CV – Gosto de todas. O simples fato outras pessoas cantarem essa música tão longa e tão pessoal me espanta.

 

3. Egmar Ulionov: Qual fonte de inspiração ou a melhor explicação para que seja necessário atualizar a canção “Quereres”, considerando que o belo do original mantém o aspecto de tempo histórico como produto de um rico contexto? Ou seja, a nova versão será a necessidade de atualização, cujo objetivo seria manter o caráter histórico para efeito de transcendentalidade ou a nova versão de “Quereres” é extremamente oposta à versão original dando origem à uma nova canção, independentemente da manutenção da essência original?

CV – Não creio que a nova versão dê à canção um caráter de novidade absoluta, como se fosse outra canção. A beleza da gravação original, ligada ao gosto da época em que foi feita, permanece: nada é igual àqueles sons dos anos 1980 envolvendo versos que nasceram então. A gravação nova não me parece propriamente oposta àquela. É uma renovação da existência da canção, como se ela estivesse sendo cantada hoje, numa sala nova. A dramaturgia de Glória Perez me pediu que a refrescasse e eu quis fazer isso com Jaques Morelenbaum, que já fez tantas coisas bonitas comigo. E ele chamou Brown, que tocou comigo também por muitos anos. Assim, é como se me tivessem pedido para cantar a música de novo, em outro ambiente. Ter Jaques e Brown comigo é como estar com elementos orgânicos em mim. Assim, é só o mesmo organismo repetindo, em outro momento e outro ambiente, a mesma peça de criação.

 

4. MARABERTODuo: Caetano, como você enxerga o momento do mercado, em que as plataformas digitais dividem o manche com o rádio e a tv e passam também a ditar tendências musicais?

CV – É tudo diferente. E eu nunca entendi muito de esquemas de divulgação mesmo. De todo modo, gosto do que acontece. É a vida no tempo, todas as suas mudanças. Há problemas que precisam ser enfrentados, como a questão dos direitos de autor nas novas plataformas. Mas cantar, compor, ouvir canções continuam sendo atos prazerosos.

 

5. Isabella Simi: O que há de diferente entre o Caetano da época em que “O Quereres” foi lançada e o Caetano de hoje, relançando essa canção? Essas diferenças afetam a forma como você reinterpreta suas próprias músicas?

CV – Inevitavelmente. E a graça é essa. A pessoa que fui virando canta canções das pessoas que fui.

 

6. Mylena Godinho: nós pudemos testemunhar uma trilogia com a banda Cê que formou CDs com uma pegada inovadora, jovem e fresca, tanto nos arranjos quanto nas composições das faixas. Ainda sobre essa contemporaneidade, o fato de a regravação de O Quereres ter acontecido de forma independente parece contrastar com a própria letra da canção, repleta de dualismos no estilo barroco: um paradoxo completamente coerente. É possível esperarmos um Caetano nessa linha mais experimental dos últimos trabalhos inéditos ou um mulato franzino mais bruta-flor para seu próximo projeto?

CV – Sempre fui um mulato franzino. A gravação de “O quereres” de agora foi sugerida pela autora de novelas Glória Perez. Tê-la feito com Jaques Morelenbaum e Carlinhos Brown é sentir que estou fazendo com meus elementos íntimos e reais. Poderia ter feito com a BandaCê. Mas isso, sim, seria redundante. Retomar o trabalho com Jaquinho nesta empreitada me parece mais experimental, arriscado, fresco e livre.

 

7. Elenilton Neukamp: Caetano querido, o que podemos fazer para ir contra esse ciclo de conservadorismo e caretice que assola o mundo? A arte nos salva? Cara, gosto de toda sua obra e muito também destes discos mais rockeiros, que sempre mostram essa sua capacidade de reinvenção, de utilização dos elementos da contemporaneidade e ao mesmo tempo da sua própria sonoridade naquele momento da composição… Recentemente perdemos Belchior. Eu sei que pessoas assim não morrem, como você disse ao Raul, mas gostaria de te perguntar sobre a obra do Belchior. Te toca também?

CV – Muito. Desde que ele apareceu. É um caso único em nossa música. Um estilo fortemente pessoal. E de boa fatura. Isso não acontece todo dia.

 

8. Jose Alderi Barbosa: Caetano, a música O Quereres, em razão da métrica utilizada, nos remete ao gênero “martelo agalopado”, muito utilizado nas cantorias dos repentistas do Nordeste. Houve, da sua parte, essa intenção de exaltação ao gênero repentista?

CV – Sim. Pensei no martelo e quis manter a estrutura assim. É meio poesia barroca, meio martelo sertanejo do nordeste.

 

9. Julia Branco: Caetano, querido. Que tipo de música ou manifestação artística tem mais te emocionado nos dias de hoje?

CV – Muitas coisas, querida Julia. De Salvador Sobral a Dirty Projectors, passando por “Boi Neon” e “O som ao redor”, as coreografias de Ohad Naharin, mil coisas.

 

10. Marcelo Richter Miguel: Caetano, ao longo de toda a sua vida artística todos os seus álbums foram incríveis e mar:cantes. Agora há boatos de que você está produzindo um novo, totalmente original. É verdade? E se for, pode antecipar alguma coisa sobre ele?

CV – Ainda não estou fazendo, nem mesmo planejando um álbum específico. Mas é sempre assim.