EXCLUSIVO: Entrevista com Criolo

EXCLUSIVO: Entrevista com Criolo

Ele é genialidade e sentimento puro. Criolo chega com uma antiga novidade: a releitura do seu primeiro disco, “Ainda Há Tempo”, de 2006. O trabalho co...

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Ele é genialidade e sentimento puro. Criolo chega com uma antiga novidade: a releitura do seu primeiro disco, “Ainda Há Tempo”, de 2006. O trabalho conta com a recriação de 8 faixas em uma síntese das 22 do pioneiro.

Com direção musical de Daniel Ganjaman, o álbum foi feito em parceria com DJ DanDan e DJ Marco, e também com produtores e parceiros como Nave, Sala 70, Papatinho, Tropkillaz, Rael e Deryck Cabrera. Já a co-produção ficou por conta de Marcelo Cabral, e o cenário da turnê tem o toque do artista plástico Alexandre Ório.

Em 2006, quando o primeiro disco foi lançado, o rap se encontrava em um cenário instável. Na época, “Criolo Doido”, como era chamado, começou a propagar sua arte e já havia fundado o Rinha dos MC’s, que funciona até hoje sediando batalhas de freestyle, shows, exposições de grafite e fotografias.

A regravação do disco é um marco por diversos motivos, dentre eles, o fato de ser uma lembrança do ponta pé inicial da carreira do rapper que hoje faz história na música brasileira, assumindo uma postura genuína e dando aula com sua visão sobre o mundo e a humanidade.

Com algumas perguntas que recebemos dos fãs, realizamos uma entrevista exclusiva com o rapper. Confira:

Brasileiríssimos: Conta pra gente um pouquinho sobre essa releitura de “Ainda Há Tempo”.

Criolo:

Foi feito com muito carinho, mesmo. Com direção do Daniel, que teve essa ideia de chamar muita gente para participar, direção de um grande artista que é o Alexandre, uma iluminação maravilhosa do Franja, os DJs Dandan e Marco que são pessoas fundamentais da musicalidade de São Paulo. Agradeço muito e dedico toda essa energia para os estudantes e professores que estão lutando para uma escola melhor, inclusiva, democrática e real.

BR: Para você que já viveu e conheceu muito do país, qual é a maior mazela de nossa nação?

Criolo:

Toda dor é uma dor, não existe dor maior ou dor menor. Toda mazela é uma mazela. Uma das coisas que contribui para o nosso sofrimento é essa corrupção gigantesca que infelizmente existe em nosso país. Porque isso influencia na educação, saúde, segurança, no desenvolvimento saudável das nossas crianças, no apoio cidadão e todas as suas questões, pequenas ou grandes. Toda questão é uma questão para aquele que está aflito.

BR: Você acredita que o disco “Ainda Há Tempo”, de 2006, continua sendo atual no nosso cenário?

Criolo:

Isso quem vai dizer são as pessoas que o escutarem. Agora, a gente tá falando de luta, da importância de se lutar por um mundo melhor, da esperança, da fé que o nosso povo tem e deposita no mundo e na própria espécie. Isso será sempre atual. Entretanto, o que eu gostaria que não fosse atual são todos os problemas sociais que esse disco apresenta.

BR: Falando sobre esperança, o que ainda sustenta a sua, dez anos depois?

Criolo:

A fé. A fé em você, a fé no nosso povo, nos nossos jovens, que estão dando uma injeção de ânimo em todo mundo. Quando você vê os jovens se organizando para algo positivo, chamando a atenção da sociedade para coisas que são importantes, se unindo aos professores e lutando por uma qualidade de educação, por uma escola que tenha o mínimo, para que as pessoas possam ali ter um bom momento social, um bom momento dessa troca de saberes, de conhecimento. Isso nos emociona muito, nos dá muita fé. Quando você vê saraus por todo Brasil, por todas as quebradas, fazendo encontros artísticos e para trocar ideias, para juntas suas energias, criar ações, porque é isso, né? Ao você ver alguém fazendo algo, isso te dá forças. Então, quando você vê um sarau acontecendo do jeito que acontece, “crews” de dança, os grupos de teatro, que é uma coisa que pouco se fala e existem grupos teatrais crescendo cada vez mais, grupos de dança, forças que se unem, cada um a seu estilo, forma e jeito de expressar e comunicando sua emoção. São coisas complementares, isso que dá o brilho no olhar, o respirar. Eu tenho muito apreço por esses jovens.

BR: Do rap antigo para o rap atual, você acha que agora está faltando alguma coisa?

Criolo: Nada! Se não fosse o rap das antigas, não teria nova geração. Referência maior para todos nós. Se não fosse essa essência viva, não teria a força que tem hoje, tanta gente compondo. Existe um maior número de pessoas tendo contato com essa boa energia que é o rap e, cada pessoa tem o seu jeito, sua forma. Alguém começou, alguém passou o ensinamento, alguém vivenciou, experimentou, se permitiu, deu a cara a tapa, para expressar, fazer o corre, abrir o caminho. Esse início de tudo é importante falar o que acontece hoje. No passado aconteceu de modo muito brutal, e é forte até hoje. Uma série de questões contundentes. Ninguém tinha falado do jeito que o rap falou. Isso é exemplo e gratidão eterno. Exemplo e essência viva que vamos carregar com a gente.

BR: Conte um pouco sobre suas inspirações para compor.

Criolo:

Tudo começa na mãe que eu tenho. Eu demorei, mas quando eu comecei a escrever, depois de dez anos que eu fui ter coragem de incomodar minha mãe com o texto, com o rap, de tanto respeito que eu tenho por ela, de tanto carinho e apreço em tudo o que ela faz. Então, várias vezes eu vi meu pai passando por tantas coisas ruins por ser um homem negro, nordestino, e essas coisas batem uma emoção e mexe com a nossa autoestima. A gente se questiona porque a sociedade é assim, e isso te leva a escrever. Tudo aquilo que te emociona pra bom ou ruim. A emoção te leva a uma construção e essa construção pode ser uma frase, um sorriso de felicidade, um lágrima de felicidade ou tristeza, um jeito de pensar, uma coreografia, uma luz para determinada parte daquele espetáculo teatral, para trazer uma emoção do que aquele escritor passou para você e pode ser também o rap. Tudo aquilo que te emociona ao ponto de você, sem perceber, naquela fração de segundo, a emoção, você já está junto naquela construção.

BR: Sobre suas influências, quais são elas e ainda são as mesmas desde o disco em 2006?

Criolo:

O rap é minha influência, forte, tudo aquilo que me emociona, que mexe comigo de certa forma e quando eu vejo está rolando o som.

BR: Você tem influenciado muitos jovens não só musicalmente, mas também em suas posturas políticas e sociais. Sempre foi um objetivo ser um formador de opinião ou é algo que acontece naturalmente?

Criolo:

Na verdade eu nunca pensei nisso, sempre escrevi, fiz rap. O rap é essa força maior, somos uma formiguinha que não dá pra ser vista perante a energia que ele tem. O rap é essa coisa que mexe com a sociedade.

BR: Como você se sente sabendo que sua música levou sim amor para a vida das pessoas, e que você, através dela, já livrou muitas pessoas do mundo das drogas?

Criolo:

Ah, minha filha, a gente se emociona, né! É a força da música, é a força de você mandar energia positiva para o mundo. Essas pessoas que são fortes, essas pessoas que tem brilho no olhar, não se deixaram levar por um momento ruim da vida, que tiveram força, autoestima e que lutaram e conquistaram o seu bem estar. Essas pessoas são os verdadeiros heróis e exemplos para gente, cada uma delas, a gente vive e divide esse sentimento, é uma honra ser trilha sonora para alguém na vida. O rap tem essa força, a música tem essa força de tocar o coração das pessoas e mostrar que elas são capazes de uma transformação para algo bom, que são os verdadeiros protagonistas dessa coisa boa.

BR: Você acredita que a próxima geração contará com uma música boa, assim como a sua vem sendo para a nossa?

Criolo:

Eu não sei se eu sou a pessoa, falo isso com muita serenidade, sigo o meu coração. Tem tanta gente maravilhosa nesse Brasil todo, fazendo música maravilhosa. A gente não repara, não percebe, o nosso dia a dia é muito brutal. Mas, às vezes, o nosso vizinho da rua de cima, o irmão do barraco do lado, a pessoa da casa da frente está fazendo uma musica, uma poesia que vai te emocionar e trazer uma boa energia. Toda hora isso está acontecendo. Música acontece agora, a cada segundo.

O álbum já está disponível em todas as plataformas de streaming, e você pode baixá-lo no site www.criolo.net.

Ouça “Ainda Há Tempo”:

“O balanço que eu faço nesses dez anos é: que bom que a música veio para a minha vida. Que bom que minha família sempre esteve ao meu lado me apoiando, me ajudando a viver e realizar esse sonho…o ‘Ainda Há Tempo’ veio a fortalecer ainda mais a relação maravilhosa que tenho com os meus pais, que amo demais!

Todo meu respeito, admiração e gratidão a todos que acreditaram comigo em um mundo melhor, e que colaboraram para torna-lo realidade, numa época de luta e sonhos, em uma periferia esquecida pela sociedade.”